<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[O Jaguadarte]]></title><description><![CDATA[Laboratório de ficções]]></description><link>https://www.jaguadarte.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PyrQ!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F41214f15-0cd6-4449-ae39-b97561ab94a7_1280x1280.png</url><title>O Jaguadarte</title><link>https://www.jaguadarte.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Mon, 27 Apr 2026 14:14:58 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://www.jaguadarte.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Miranda Maciel]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[‎miranda@jaguadarte.com‎]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[‎miranda@jaguadarte.com‎]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Miranda]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Miranda]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[‎miranda@jaguadarte.com‎]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[‎miranda@jaguadarte.com‎]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Miranda]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A vida após o Twitter]]></title><description><![CDATA[Oi, meu nome &#233; Miranda, e estou a duas semanas sem Twitter]]></description><link>https://www.jaguadarte.com/p/a-vida-apos-o-twitter</link><guid isPermaLink="false">https://www.jaguadarte.com/p/a-vida-apos-o-twitter</guid><dc:creator><![CDATA[Miranda]]></dc:creator><pubDate>Mon, 09 Jan 2023 18:52:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/88a64626-6130-47d5-b7bb-45841711ede1_984x531.gif" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Oi, meu nome &#233; Miranda, e estou a duas semanas sem Twitter. Ou quase isso, porque tive uma pequena reca&#237;da essa tarde. Mas parei novamente, comprovando que eu tinha raz&#227;o: n&#227;o sou viciada, sou capaz de parar quando quiser.</p><p>Com duas semanas j&#225; sinto os primeiros benef&#237;cios &#224; sa&#250;de de ter largado as redes sociais. Primeiro, a ansiedade diminuiu. Na verdade, ela aumentou nos primeiros dias, provavelmente num efeito rebote ou crise de abstin&#234;ncia, mas depois disse ela diminuiu e o estresse foi junto. &#201; bom n&#227;o se bombardeada por uma quantidade exorbitante de informa&#231;&#227;o por minuto. Segundo benef&#237;cio, comecei a fazer exerc&#237;cios f&#237;sicos. Ou pelo menos sa&#237; para caminhar uns tr&#234;s dias de quinze, mas j&#225; &#233; alguma coisa. E terceiro&#8230; Bom, devem ter mais vantagens, mas tanto faz, porque a paz de esp&#237;rito j&#225; vale a investida. Sinto que ganhar mais tempo livre para investir em outras coisas deveria ser uma vantagem, mas ainda estou penando para investir esse tempo em algo &#250;til.</p><p>Depois de duas semanas consigo pesar as coisas que mais fazem falta na vida ap&#243;s o Twitter: a primeira delas &#233; a facilidade com que &#233; poss&#237;vel ler not&#237;cias a partir de tweets. Eles s&#227;o mais velozes do que os sites dos jornais, e se voc&#234; sabe montar uma sele&#231;&#227;o variada de fontes confi&#225;veis, voc&#234; sempre vai saber de tudo que precisa praticamente em tempo real. O que &#233; bom, mas &#233; um fardo, o estresse que vem junto desse poder &#233; in&#250;til. No final das contas, voc&#234; poderia ler um artigo de jornal no final do dia e gastar muito menos tempo e esquentar menos a cabe&#231;a. </p><p>Outra coisa que sinto falta &#233; de poder falar coisas sem saber se algu&#233;m vai ler e postar algumas piadas com timing certeiro. Para falar sem saber quem vai ler eu tenho uma newsletter, para as piadas com o timing certeiro eu tenho&#8230; bem, eu tenho a newsletter tamb&#233;m, mesmo que o momento n&#227;o seja t&#227;o garantido. Se voc&#234; est&#225; lendo isso no dia 9 de janeiro de 2023, a&#237; vai uma: Bolsonaro estaria se cagando de medo se hoje fosse o &#8220;dia sim&#8221;. Como &#233; o &#8220;dia n&#227;o&#8221;, <a href="https://valor.globo.com/politica/noticia/2023/01/09/bolsonaro-internado-com-dores-abdominais-em-hospital-dos-eua-diz-colunista.ghtml">ele foi internado</a>.</p><p>Tamb&#233;m sinto falta de saber como anda a vida dos meus amigos a partir de trechos cr&#237;pticos e mensagens de duas linhas abertas para interpreta&#231;&#227;o. Talvez agora eu tenha que efetivamente manter contato, como meus ancestrais faziam, e come&#231;ar a escrever cartas.</p><p>E por isso estou escrevendo essa carta. Para dizer que estou bem, que este ano o c&#233;u est&#225; mais brilhante, que n&#227;o me arrependo da minha decis&#227;o, e perguntar como v&#227;o os seus dias.<br></p><div><hr></div><p><br>P.S.: como eu n&#227;o consigo mais divulgar minha newsletter nas redes sociais, fa&#231;a isso por mim, por favor.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Que história aguarda, lá em baixo, seu fim?]]></title><description><![CDATA[Todos os livros que li desde meu anivers&#225;rio de vinte e quatro anos n&#227;o t&#234;m final.]]></description><link>https://www.jaguadarte.com/p/uma-maldicao</link><guid isPermaLink="false">https://www.jaguadarte.com/p/uma-maldicao</guid><dc:creator><![CDATA[Miranda]]></dc:creator><pubDate>Tue, 22 Nov 2022 10:00:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://bucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com/public/images/41214f15-0cd6-4449-ae39-b97561ab94a7_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Todos os livros que li desde meu anivers&#225;rio de vinte e quatro anos n&#227;o t&#234;m final. Anos se passaram desde ent&#227;o e comecei dezenas de livros, mas fui incapaz de termin&#225;-los. Alguns parei nas primeiras p&#225;ginas. Outros, li at&#233; quase o derradeiro cap&#237;tulo antes da maldi&#231;&#227;o se manifestar. Mas invariavelmente n&#227;o consigo mais chegar na &#250;ltima p&#225;gina.</p><p>Conto isso por tr&#234;s motivos:</p><p>O primeiro &#233; uma exonera&#231;&#227;o de responsabilidade. S&#227;o anos sem conseguir terminar um livro e voc&#234; est&#225; prestes a ler meu boletim matinal. Ou, na pior das hip&#243;teses, assinou sem ler os termos. Minha escrita est&#225; ainda mais enferrujada que minha leitura, afinal a gradua&#231;&#227;o em Hist&#243;ria tirou meu prazer em escrever por esporte durante anos. Mas n&#227;o mais. Por isso criei esse di&#225;rio, como uma forma de exercitar m&#250;sculos que est&#227;o parados desde que dei um ghosting no meu orientador de mestrado. Meu jornalzinho n&#227;o tem editor, e se a qualidade for duvidosa voc&#234; recebeu meu aviso. Contudo, os artigos v&#227;o melhorando com o tempo, te garanto, afinal este &#233; o objetivo com o qual voltei a escrever.</p><p>Agora que voc&#234; sabe os termos em que estamos, o segundo motivo que eu te conto isso &#233; um desabafo. N&#227;o ser capaz de terminar um livro &#233; horr&#237;vel, sinto-me o leitor de &#205;talo Calvino que agoniadamente tenta encontrar o final de <em>Se um viajante numa noite de inverno</em>, apenas que no lugar de uma conspira&#231;&#227;o paira sobre mim uma maldi&#231;&#227;o. Ent&#227;o queria compartilhar essa hist&#243;ria com voc&#234;. N&#227;o espero nenhum conselho, honestamente, mas &#233; que o ato de escrever me obriga a colocar as ideias no lugar, nem que esse lugar seja o papel. Mas mais do que isso, uma das sequelas da gradua&#231;&#227;o em Hist&#243;ria &#233; que voc&#234; se torna incapaz de escrever um e-mail que seja sem pensar em estruturas para suas ideias dispersas; uma propriedade terap&#234;utica que sinto falta na terapia. Quem sabe assim eu consigo lidar com o luto de ter perdido o final de todos meus livros futuros.</p><p>E o terceiro motivo, com poucas esperan&#231;as, &#233; um exorcismo. Talvez o ato de transformar em palavras a maldi&#231;&#227;o posta sobre mim pelo fantasma de Virg&#237;nia Woolf torne-a apenas isso: palavras. Uma fic&#231;&#227;o, uma mentira. E assim na pr&#243;xima vez que eu pegar um livro o final dele estar&#225; l&#225;, no alcance das minhas m&#227;os.</p><div><hr></div><p>Eu havia acabado de ter meu ano de leituras mais frut&#237;fero quando Virg&#237;nia me amaldi&#231;oou. Estava lendo um livro dela sobre uma aristocrata inglesa e sua metanoia no entreguerras. As reflex&#245;es de Clarisse ainda habitam minha mente. Espero que ela tenha sido feliz, espero que a festa dela tenha dado certo. Eu n&#227;o sei a resposta para essas perguntas porque no meu anivers&#225;rio de vinte e quatro anos recebi a not&#237;cia da quarentena. N&#227;o consegui continuar a ler, me afundei no trabalho, me afundei na depress&#227;o, isolei meus amigos, me isolei de meus livros. Os piores meses da minha vida passaram como anos.</p><p>N&#227;o foi at&#233; o ano seguinte, em um estado mental ligeiramente melhor, que tentei ler um livro novamente. <em>A F&#250;ria</em>, de Silvina Ocampo, compila hist&#243;rias &#225;cidas e penetrantes. Um animal selvagem em forma de livro. E era exatamente o que eu precisava para retomar a leitura: contos. N&#227;o digo isso apenas pela superioridade do conto ao romance, mas tamb&#233;m porque em meu estado deplor&#225;vel eu precisava de hist&#243;rias mais curtas, como um comprimido partido para facilitar a ingest&#227;o e que, ao mesmo tempo, me fizessem sentir algo em meio ao vazio que estava vivendo. Nem que este algo fosse a mordida de um lobo.</p><p>N&#227;o adiantou, antes da metade a maldi&#231;&#227;o se manifestou pela primeira vez. O livro sumiu da minha mente, e na metade de um conto nunca mais voltei a l&#234;-lo.</p><p>Tentei novamente com outros contistas argentinos, Mariana Enriques e Jorge Luiz Borges. Tentei romances, livros acad&#234;micos, <em>graphic novels</em>, manuais de controle remoto e textos sagrados. Tentei com meu livro favorito, com meu autor favorito, tentei com um livro que j&#225; tinha lido quando crian&#231;a. Tentei com dezenas de livros, tentei dezenas de invoca&#231;&#245;es e exorcismos, o mais recente <em>Apocalypse Baby </em>de Depentes.</p><p>Meu estado era deplor&#225;vel, e no terceiro anivers&#225;rio que passei sem conseguir finalizar um livro tomei a decis&#227;o mais racional poss&#237;vel e comecei a terapia. Um semestre se passou desde ent&#227;o e sinto que consegui sair parcialmente do estado depressivo que me encontrava. Lembrarei para sempre da sensa&#231;&#227;o m&#225;gica de sentir empolga&#231;&#227;o com algo pela primeira vez em mais de dois anos. A terapia tamb&#233;m me ajudou a identificar um d&#233;ficit de aten&#231;&#227;o do qual venho desenvolvendo ferramentas para lidar. Foi a decis&#227;o mais acertada que j&#225; tomei (eu lembro de todas porque n&#227;o foram muitas). Ainda assim ainda n&#227;o consigo terminar nenhum livro. </p><div><hr></div><p>Me restam apenas duas alternativas. A primeira executo agora, na forma desta carta, deste desabafo, deste exorcismo. Quando finalizado, espero conseguir voltar para minha vida como era antes.</p><p>A segunda veio a mim por meio de <a href="https://theconversation.com/virginia-woolf-writing-death-and-illness-into-the-national-story-of-post-first-world-war-britain-157925">um sonho</a>. Algo que n&#227;o percebi em minha primeira leitura &#233; que <em>Mrs. Dollaway</em> &#233; uma hist&#243;ria sobre um mundo n&#227;o apenas p&#243;s-guerra, mas p&#243;s-pand&#234;mico. A hist&#243;ria de uma mulher de meia-idade que sofreu das sequelas da gripe espanhola e decidiu, dado dia, sair de casa e ir comprar flores sozinha. Talvez eu consiga terminar de ler o livro agora que essa informa&#231;&#227;o n&#227;o escapar&#225; como da primeira vez. Talvez eu consiga comprar as flores sozinha.</p><p></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>